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A resposta curta

Interpretação de sonho não é previsão do futuro nem diagnóstico. Este texto reúne o que a pesquisa sobre sono observa e o que a leitura popular costuma associar ao tema, sempre identificando cada um.

Quando um sonho parece se cumprir, quase sempre há uma combinação de três coisas: sonhamos muito mais do que lembramos, o sonho costuma tratar de preocupações reais que já estavam no ar e a memória ajusta o sonho depois que o fato acontece. Nenhuma pesquisa confiável mostrou que sonhos preveem o futuro, mas também não é preciso tratar como bobagem a impressão de quem viveu isso.

Acreditar ou não em premonição é uma questão pessoal e, para muitos, de fé. O que a ciência oferece é uma explicação para por que a experiência é tão comum e tão convincente. Se o sonho foi com a morte de alguém, leia antes o que significa sonhar com morte, porque esse é o caso que mais assusta.

Leia também: O motivo por trás do déjà vu e Sonhos recorrentes.

Muitos sonhos, poucos lembrados

Uma noite de sono tem vários ciclos, e a fase REM, a mais ligada aos sonhos vívidos, volta algumas vezes. William Dement e Edward Wolpert, em 1958, viram que pessoas acordadas nessa fase costumam relatar sonhos. A maior parte deles, porém, some antes do café da manhã.

A quantidade lembrada varia muito entre as pessoas. Num estudo de Jean-Baptiste Eichenlaub e colegas, de 2014, quem lembrava muito relatava em média cerca de cinco sonhos por semana; quem lembrava pouco, cerca de meio sonho por semana. Agora faça a conta com o primeiro grupo: são centenas de sonhos lembrados por ano, cada um com pessoas, lugares e situações do dia a dia. Seria estranho se nenhum deles se parecesse com algo que vai acontecer.

E ninguém comenta no almoço de domingo que sonhou com um acidente e nada aconteceu. Esses sonhos são esquecidos, e só os que "bateram" viram história.

Fontes: Dement e Wolpert, Journal of Experimental Psychology, 1958; Eichenlaub e colegas, Resting brain activity varies with dream recall frequency, Neuropsychopharmacology, 2014.

O sonho fala de coisas que já estavam no ar

A hipótese da continuidade, testada por Michael Schredl e Friedrich Hofmann em 2003, mostra que os sonhos acompanham o que ocupa a vida acordada. Se você anda preocupado com a saúde do seu pai, é natural sonhar com ele num hospital. Se ele adoece semanas depois, o sonho parece aviso, mas a preocupação veio antes porque você já percebia sinais: o cansaço dele, um exame adiado, um comentário no telefone.

CenaO que costuma acompanhar
Sonhar que alguém próximo adoece e depois a pessoa adoecePreocupação anterior com a saúde dela, sinais percebidos sem perceber
Sonhar com briga e a briga acontecerTensão que já existia na relação e que o sonho deixou mais visível
Sonhar que perde o emprego e depois ser demitidoClima ruim na empresa, cortes anunciados, insegurança acumulada
Sonhar com uma ligação de alguém sumidoDatas especiais, lembranças recentes, pessoas que costumam reaparecer
Sonhar com acidente e saber de um acidenteMedo comum no trânsito e notícias frequentes sobre o tema

Nesse sentido, o sonho pode até "acertar" sem prever nada: ele junta à noite peças que a cabeça já tinha durante o dia. Para cenas de trânsito, veja sonhar com acidente.

Fonte: Schredl e Hofmann, Continuity between waking activities and dream activities, Consciousness and Cognition, 2003.

Veja também: Sonho de quinta para sexta e Pesadelos de criança.

A memória muda o sonho depois do fato

Baruch Fischhoff publicou em 1975 um estudo clássico com um título que resume tudo: o olhar para trás não é o mesmo que o olhar para a frente. Depois de saber como algo terminou, as pessoas passam a achar que o resultado era previsível desde o começo. É o chamado viés de retrospectiva.

Com sonhos, o efeito é forte. O sonho da semana passada era vago: uma estrada, um barulho, alguém chorando. Quando chega a notícia, a memória preenche os buracos com os detalhes do fato real, e o sonho fica mais nítido na lembrança do que foi na noite. Esse é o mesmo mecanismo que explica por que tanta gente lembra errado da mesma coisa.

Fonte: Fischhoff, Hindsight is not foresight, 1975 (reeditado em 2003).

Freud, Jung e a fé diante do sonho que se cumpre

Na psicanálise de Freud. Ao revisar o que se escrevia antes dele, Freud descreve a crença no poder dos sonhos de adivinhar o futuro como um conflito entre um ceticismo quase insuperável e afirmações repetidas com teimosia. Ele aposta que muitos casos encontrariam explicação na psicologia e lembra que, como tanto do sonho se perde, a lembrança do que sobra pode estar falseada. E conta uma história da própria família: uma velha camponesa previu à mãe dele que o filho seria um grande homem. Para Freud, profecias assim devem ser muito comuns, porque mães esperançosas existem aos montes e quem profetiza não tem nada a perder.

Na psicologia de Jung. Jung admitia que o sonho às vezes antecipa situações, mas explicava isso de outro modo: muitas crises têm uma longa preparação inconsciente, e o sonho registra o caminho antes que a pessoa o perceba acordada. Para ele, isso não precisava ser milagre nem adivinhação.

Nos símbolos e na fé. Na tradição cristã, há sonhos que anunciam o futuro, como os do faraó em Gênesis. Mas o Deuteronômio, no capítulo 13, avisa que nem um sinal que se cumpre basta para dar razão a quem o anuncia. Por isso, muitos fiéis tratam o sonho que "bateu" com oração e prudência, sem transformá-lo em regra. Veja mais em sonhos na Bíblia.

Para juntar as duas leituras. A fé pode ver no sonho um cuidado; a ciência vê preocupação, coincidência e memória. Nas duas, o caminho é agir com calma.

Fontes: Freud, Die Traumdeutung, 1900; Jung (org.), O homem e seus símbolos; Bíblia Sagrada (Gênesis 37, 40 e 41; Daniel 2, 4 e 7; Mateus 1 e 2).

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Como testar seus próprios sonhos com honestidade

  • Anote antes, não depois: escreva o sonho logo ao acordar, com data. Só vale comparar com o que foi registrado antes do fato.
  • Conte os erros também: marque quais sonhos não se cumpriram. Depois de alguns meses, a proporção costuma surpreender.
  • Pergunte o que você já sabia: diante de um "acerto", veja se havia sinais anteriores, mesmo pequenos.
  • Não tome decisões só pelo sonho: cancelar viagem, romper relação ou agir por causa de um sonho deve passar por uma conversa com alguém de confiança. Se houver sintomas, procure o médico, com ou sem sonho.

Se quiser começar, veja por que esquecemos os sonhos e como lembrar mais.

Quando o medo do sonho pede ajuda

Se os sonhos de "aviso" deixam você com medo de dormir, se repetem toda semana ou aparecem depois de uma perda, converse com um médico ou psicólogo. Pesadelos frequentes têm tratamento; veja como ter menos pesadelos. Em sofrimento intenso, o CVV atende pelo 188, ligação gratuita, 24 horas. Veja o que o significado dos sonhos quer dizer segundo a ciência e a cultura.

Fonte: Morgenthaler e colegas, Journal of Clinical Sleep Medicine, 2018.

Conteúdo informativo. Não substitui orientação médica, financeira ou profissional individualizada.

Fontes

  1. Dement W, Wolpert EA. The relation of eye movements, body motility, and external stimuli to dream content. Journal of Experimental Psychology, 1958. https://doi.org/10.1037/h0040031
  2. Eichenlaub JB, Nicolas A, Daltrozzo J, Redouté J, Costes N, Ruby P. Resting Brain Activity Varies with Dream Recall Frequency Between Subjects. Neuropsychopharmacology, 2014; 39: 1594-1602. https://doi.org/10.1038/npp.2014.6
  3. Schredl M, Hofmann F. Continuity between waking activities and dream activities. Consciousness and Cognition, 2003. https://doi.org/10.1016/S1053-8100(02)00072-7
  4. Fischhoff B. Hindsight ≠ foresight: the effect of outcome knowledge on judgment under uncertainty. Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance, 1975. Reeditado em Quality and Safety in Health Care, 2003; 12: 304-311. https://doi.org/10.1136/qhc.12.4.304
  5. Freud S. The Interpretation of Dreams (Die Traumdeutung), 1900. Project Gutenberg. https://www.gutenberg.org/ebooks/66048
  6. Jung CG (org.). O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/HarperCollins Brasil (original: Man and His Symbols, 1964). https://www.skoob.com.br/book/8435
  7. Bíblia Sagrada. Gênesis 37, 40 e 41; Daniel 2, 4 e 7; Mateus 1 e 2.
  8. Morgenthaler TI et al. Position Paper for the Treatment of Nightmare Disorder in Adults: An American Academy of Sleep Medicine Position Paper. Journal of Clinical Sleep Medicine, 2018. https://doi.org/10.5664/jcsm.7178

Perguntas frequentes

Sonho pode prever o futuro?

Não há pesquisa confiável mostrando que sonhos preveem o futuro. O que a ciência observa é que sonhos refletem preocupações reais, e a memória tende a ajustar o sonho depois do fato. Para muitas pessoas, a questão também é de fé.

Por que sonhei com algo e depois aconteceu?

Geralmente por coincidência, por preocupação que já existia ou por sinais que você percebeu sem notar. Também lembramos mais dos sonhos que batem e esquecemos os que não se cumprem.

Sonhar com a morte de alguém é premonição?

Não. Sonhos com morte costumam falar de mudança, medo de perda ou preocupação com a pessoa. Eles são comuns e quase nunca correspondem a um fato.

Como saber se um sonho foi premonição?

O único jeito honesto é anotar o sonho com data antes do fato e contar também os que não se cumpriram. Sem esse registro, a memória costuma enganar.

O que a Bíblia diz sobre sonhos que se cumprem?

A Bíblia narra sonhos que anunciam acontecimentos, como os do faraó em Gênesis 41, mas também pede discernimento: Deuteronômio 13 avisa que um sinal cumprido não basta para dar autoridade a quem o anuncia.

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