Antes de procurar significado
Interpretação de sonho não é previsão do futuro nem diagnóstico. Este texto reúne o que a pesquisa sobre sono observa e o que a leitura popular costuma associar ao tema, sempre identificando cada um.
Procurar o significado de um sonho é um hábito antigo, presente em praticamente todas as culturas. O que mudou é que hoje existe pesquisa sobre o que acontece no cérebro enquanto sonhamos, e ela não sustenta a ideia de sonho como aviso do futuro.
Isso não torna o sonho irrelevante. Ele costuma dizer bastante sobre o que você viveu e sentiu nos últimos dias.
O que a pesquisa já mostrou
Pesquisadores acordaram voluntários várias vezes durante a noite, com registro da atividade cerebral, e identificaram uma região na parte de trás do cérebro cuja atividade indicava se a pessoa estava sonhando, dentro e fora do sono REM. O padrão era claro o bastante para prever, só pelo sinal, se a pessoa relataria um sonho.
Fonte: Siclari e colegas, The neural correlates of dreaming, Nature Neuroscience, 2017.
Outro achado importante é a chamada hipótese da continuidade: o conteúdo dos sonhos acompanha o que a pessoa viveu acordada. Em um estudo com diários de sonho, atividades e preocupações do dia a dia reapareceram nos sonhos, ainda que em proporções diferentes.
Por que sonhamos com perigo
O psicólogo finlandês Antti Revonsuo propôs que sonhar funcionaria como um simulador de ameaças: o cérebro ensaiaria, em segurança, situações de risco que nossos antepassados enfrentavam. Isso ajudaria a explicar por que perseguição, queda e animais perigosos aparecem tanto nos relatos, no mundo inteiro.
É uma hipótese influente, discutida e contestada por outros pesquisadores, não um fato fechado.
Fonte: Revonsuo, The reinterpretation of dreams, Behavioral and Brain Sciences, 2000.
Os sonhos mais comuns
Um levantamento com estudantes universitários mediu quais temas de sonho mais aparecem ao longo da vida. Entre os mais relatados estão ser perseguido, cair, chegar atrasado a um compromisso, voar, ficar nu em público, ser atacado, perder os dentes e sonhar com alguém que já morreu.
Ou seja: se você sonhou com um desses, isso diz mais sobre o funcionamento comum da mente humana do que sobre um recado dirigido a você.
Fonte: Nielsen e colegas, The Typical Dreams of Canadian University Students, Dreaming, 2003.
Como olhar para um sonho, na prática
Em vez de procurar um dicionário, três perguntas ajudam mais:
- Qual foi a emoção? Medo, alívio, vergonha, saudade. A emoção costuma ser a parte mais fiel do sonho.
- O que aconteceu nos últimos dias? Discussão, prova, mudança, conta atrasada, uma série que você maratonou. A continuidade com a vida acordada é o achado mais consistente da área.
- Isso se repete? Um sonho isolado é ruído. Um tema que volta várias vezes costuma apontar para algo que está ocupando espaço na sua cabeça.
Anotar logo ao acordar, antes de pegar o celular, é o que mais aumenta a chance de lembrar.
E a interpretação popular?
Na leitura popular, cada elemento ganha um símbolo: cobra costuma ser associada a traição ou a uma pessoa próxima que incomoda; água, a emoções; dinheiro, a valor e reconhecimento; dentes, a perda e insegurança. Essas associações vêm de tradições culturais e religiosas, mudam de país para país e não têm comprovação científica.
Elas podem ser um ponto de partida interessante para pensar sobre a própria vida, desde que ninguém tome decisão importante com base nelas.
Veja as páginas do tema: sonhar com cobra, com água, com dinheiro, com dente caindo, com bebê e com morte.
Quando o sonho merece atenção profissional
Pesadelos frequentes que atrapalham o sono, sonhos ligados a um acontecimento traumático ou medo de dormir merecem conversa com um profissional de saúde. Existem tratamentos com boa evidência para pesadelo recorrente, e ninguém precisa conviver com isso achando que é normal.
Veja também por que sonhamos e hábitos noturnos para dormir melhor.
Fontes
- Siclari F et al. The neural correlates of dreaming. Nature Neuroscience, 2017. https://doi.org/10.1038/nn.4545
- Schredl M, Hofmann F. Continuity between waking activities and dream activities. Consciousness and Cognition, 2003. https://doi.org/10.1016/S1053-8100(02)00072-7
- Revonsuo A. The reinterpretation of dreams: An evolutionary hypothesis of the function of dreaming. Behavioral and Brain Sciences, 2000. https://doi.org/10.1017/S0140525X00004015
- Nielsen TA et al. The Typical Dreams of Canadian University Students. Dreaming, 2003. https://doi.org/10.1023/b:drem.0000003144.40929.0b
Perguntas frequentes
Sonho prevê o futuro?
Não há evidência científica de que sonhos prevejam acontecimentos. O que a pesquisa mostra é ligação com o que a pessoa viveu e sentiu acordada.
Qual o sonho mais comum?
Entre os mais relatados estão ser perseguido, cair, chegar atrasado, voar, perder os dentes e sonhar com alguém que já morreu.
Por que esqueço meus sonhos?
A lembrança some rápido ao acordar. Anotar nos primeiros minutos, antes de pegar o celular, ajuda bastante.
Sonho repetido significa alguma coisa?
Um tema que volta muitas vezes costuma acompanhar uma preocupação da vida acordada. Se atrapalha o sono, vale conversar com um profissional.