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Antes de procurar significado

Interpretação de sonho não é previsão do futuro nem diagnóstico. Este texto reúne o que a pesquisa sobre sono observa e o que a leitura popular costuma associar ao tema, sempre identificando cada um.

Procurar o significado de um sonho é um hábito antigo, presente em praticamente todas as culturas. O que mudou é que hoje existe pesquisa sobre o que acontece no cérebro enquanto sonhamos, e ela não sustenta a ideia de sonho como aviso do futuro.

Isso não torna o sonho irrelevante. Ele costuma dizer bastante sobre o que você viveu e sentiu nos últimos dias.

O que a pesquisa já mostrou

Pesquisadores acordaram voluntários várias vezes durante a noite, com registro da atividade cerebral, e identificaram uma região na parte de trás do cérebro cuja atividade indicava se a pessoa estava sonhando, dentro e fora do sono REM. O padrão era claro o bastante para prever, só pelo sinal, se a pessoa relataria um sonho.

Fonte: Siclari e colegas, The neural correlates of dreaming, Nature Neuroscience, 2017.

Outro achado importante é a chamada hipótese da continuidade: o conteúdo dos sonhos acompanha o que a pessoa viveu acordada. Em um estudo com diários de sonho, atividades e preocupações do dia a dia reapareceram nos sonhos, ainda que em proporções diferentes.

Fonte: Schredl e Hofmann, Continuity between waking activities and dream activities, Consciousness and Cognition, 2003.

Freud, Jung e a fé diante desse sonho

Na psicanálise de Freud. Dos dois métodos populares que Freud descreveu, o simbólico é o de José, que lê nas sete vacas gordas e sete magras do Faraó sete anos de fartura e sete de fome (Gênesis 41). O da decifração usa código fixo: num livro dos sonhos, "carta" vira "transtorno", e "funeral", "noivado". Freud achava os dois insuficientes e preferiu a associação livre, que divide o sonho em partes e pergunta o que vem à cabeça sobre cada uma. A dissertação de Juliana David Jorge (PUC Minas, 2007) mostra como ela virou a "regra fundamental" do método.

Na psicologia de Jung. Jung foi ainda mais duro. Em O homem e seus símbolos, chama de tolice confiar em guias prontos, "como se pudéssemos comprar um livro de consultas" para traduzir um símbolo: nenhum símbolo do sonho pode ser separado de quem sonhou. Aos alunos, aconselhava aprender o máximo sobre simbolismo e, na hora de analisar um sonho, esquecer tudo.

Nas tradições de fé. No espiritismo, O livro dos espíritos (Allan Kardec, 1857, questões 400 a 418) ensina que no sono os laços entre espírito e corpo se afrouxam e o espírito pode se relacionar com outros espíritos; o sonho seria em parte a lembrança disso, confusa e misturada às preocupações. Na umbanda, o Diário dos Sonhos de Pai Rodrigo Queiroz pede registro diário, porque o sonho às vezes só faz sentido dias depois, e propõe a escala CEC (Clareza, Emoção e Confirmação) para separar o sonho comum do possível recado espiritual.

Para juntar as duas leituras. O diário de sonhos do workbook de Talvez você deva conversar com alguém, de Lori Gottlieb, pede título, data, descrição, personagens, temas e, só no fim, interpretação. A ordem já ensina o método: primeiro registrar, depois buscar sentido, seja na terapia, seja na fé.

Fontes: Freud, Die Traumdeutung, 1900; Jorge, PUC Minas, 2007; Jung (org.), O homem e seus símbolos; L. P. Baçan, O livro dos sonhos, 2014; Kardec, O livro dos espíritos; Pai Rodrigo Queiroz, Diário dos sonhos; Gottlieb, Diário: Talvez você deva conversar com alguém.

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Por que sonhamos com perigo

O psicólogo finlandês Antti Revonsuo propôs que sonhar funcionaria como um simulador de ameaças: o cérebro ensaiaria, em segurança, situações de risco que nossos antepassados enfrentavam. Isso ajudaria a explicar por que perseguição, queda e animais perigosos aparecem tanto nos relatos, no mundo inteiro.

É uma hipótese influente, discutida e contestada por outros pesquisadores, não um fato fechado.

Fonte: Revonsuo, The reinterpretation of dreams, Behavioral and Brain Sciences, 2000.

Veja também: Terror noturno e Sonho lúcido.

Os sonhos mais comuns

Um levantamento com estudantes universitários mediu quais temas de sonho mais aparecem ao longo da vida. Entre os mais relatados estão ser perseguido, cair, chegar atrasado a um compromisso, voar, ficar nu em público, ser atacado, perder os dentes e sonhar com alguém que já morreu.

Ou seja: se você sonhou com um desses, isso diz mais sobre o funcionamento comum da mente humana do que sobre um recado dirigido a você.

Fonte: Nielsen e colegas, The Typical Dreams of Canadian University Students, Dreaming, 2003.

Como olhar para um sonho, na prática

Em vez de procurar um dicionário, três perguntas ajudam mais:

  1. Qual foi a emoção? Medo, alívio, vergonha, saudade. A emoção costuma ser a parte mais fiel do sonho.
  2. O que aconteceu nos últimos dias? Discussão, prova, mudança, conta atrasada, uma série que você maratonou. A continuidade com a vida acordada é o achado mais consistente da área.
  3. Isso se repete? Um sonho isolado é ruído. Um tema que volta várias vezes costuma apontar para algo que está ocupando espaço na sua cabeça.

Anotar logo ao acordar, antes de pegar o celular, é o que mais aumenta a chance de lembrar.

O que dizem os livros dos sonhos

A busca por sentido nos sonhos é tão antiga quanto a escrita. No século II, Artemidoro de Daldis escreveu a Oneirocritica, o mais antigo livro grego de interpretação de sonhos que chegou completo até nós, e já defendia que o mesmo sonho muda de sentido conforme a vida de quem sonha. Séculos depois, os "livros dos sonhos" populares, como o Livro do Sonho, organizaram os símbolos em forma de dicionário, com um significado para cada imagem. Freud, em A Interpretação dos Sonhos, de 1900, descreveu esses dois caminhos, o simbólico e o da "decifração", e propôs um terceiro: entender o sonho a partir das associações e da história de cada pessoa. Neste blog, cada artigo traz o que a ciência observa e o que os livros dizem. No Brasil, O livro dos sonhos, de L. P. Baçan (2014), segue esse formato de dicionário e tem verbete até para o próprio sonho: na vida, êxito nas atividades; no amor, felicidade.

Freud descreveu os livros dos sonhos como uma espécie de dicionário, que traduz cada imagem por outra de sentido fixo. Já Artemidoro de Daldis, autor do mais antigo livro grego de interpretação de sonhos que chegou completo até nós, recomendava olhar para a vida de quem sonha antes de interpretar. Se você vê o sonho como mensagem, a sugestão dos dois caminhos é a mesma: pergunte o que essa imagem lembra no seu momento atual.

Fonte: Livro do Sonho, dicionário de significados; Freud, Die Traumdeutung, 1900; L. P. Baçan, O livro dos sonhos, 2014.

E a interpretação popular?

Na leitura popular, cada elemento ganha um símbolo: cobra costuma ser associada a traição ou a uma pessoa próxima que incomoda; água, a emoções; dinheiro, a valor e reconhecimento; dentes, a perda e insegurança. Essas associações vêm de tradições culturais e religiosas, mudam de país para país e não têm comprovação científica.

Elas podem ser um ponto de partida interessante para pensar sobre a própria vida, desde que ninguém tome decisão importante com base nelas.

Veja as páginas do tema: sonhar com cobra, com água, com dinheiro, com dente caindo, com bebê e com morte.

Quando o sonho merece atenção profissional

Pesadelos frequentes que atrapalham o sono, sonhos ligados a um acontecimento traumático ou medo de dormir merecem conversa com um profissional de saúde. Existem tratamentos com boa evidência para pesadelo recorrente, e ninguém precisa conviver com isso achando que é normal.

Veja também por que sonhamos e hábitos noturnos para dormir melhor.

Conteúdo informativo. Não substitui orientação médica, financeira ou profissional individualizada.

Leia também: por que os pesadelos acontecem e como diminuí-los; por que o mesmo sonho se repete; Sonhar com montanha.

Fontes

  1. Siclari F et al. The neural correlates of dreaming. Nature Neuroscience, 2017. https://doi.org/10.1038/nn.4545
  2. Schredl M, Hofmann F. Continuity between waking activities and dream activities. Consciousness and Cognition, 2003. https://doi.org/10.1016/S1053-8100(02)00072-7
  3. Revonsuo A. The reinterpretation of dreams: An evolutionary hypothesis of the function of dreaming. Behavioral and Brain Sciences, 2000. https://doi.org/10.1017/S0140525X00004015
  4. Nielsen TA et al. The Typical Dreams of Canadian University Students. Dreaming, 2003. https://doi.org/10.1023/b:drem.0000003144.40929.0b
  5. Freud S. The Interpretation of Dreams (Die Traumdeutung), 1900. Project Gutenberg. https://www.gutenberg.org/ebooks/66048
  6. Livro do Sonho. Significado dos sonhos (dicionário). https://www.livrodosonho.com/significado-dos-sonhos
  7. Jorge JD. A construção da associação livre na obra de Freud. Dissertação (Mestrado em Psicologia), Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 2007.
  8. Jung CG (org.). O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/HarperCollins Brasil (original: Man and His Symbols, 1964). https://www.skoob.com.br/book/8435
  9. Baçan LP. O livro dos sonhos. Edição do autor, 2014.
  10. Kardec A. O livro dos espíritos (1857), questões 400 a 418: O sono e os sonhos. Kardecpedia. https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/2/o-livro-dos-espiritos/718/livro-segundo-mundo-espirita-ou-mundo-dos-espiritos/capitulo-viii-emancipacao-da-alma/o-sono-e-os-sonhos/400
  11. Queiroz R (Pai Rodrigo Queiroz). Diário dos sonhos. E-book, versão para impressão.
  12. Gottlieb L. Diário: Talvez você deva conversar com alguém. Belo Horizonte: Vestígio, 2022 (material extra: diário de sonhos). https://www.martinsfontespaulista.com.br/diario--talvez-voce-deva-conversar-com-alguem-1014144/p

Perguntas frequentes

Sonho prevê o futuro?

Não há evidência científica de que sonhos prevejam acontecimentos. O que a pesquisa mostra é ligação com o que a pessoa viveu e sentiu acordada.

Qual o sonho mais comum?

Entre os mais relatados estão ser perseguido, cair, chegar atrasado, voar, perder os dentes e sonhar com alguém que já morreu.

Por que esqueço meus sonhos?

A lembrança some rápido ao acordar. Anotar nos primeiros minutos, antes de pegar o celular, ajuda bastante.

Sonho repetido significa alguma coisa?

Um tema que volta muitas vezes costuma acompanhar uma preocupação da vida acordada. Se atrapalha o sono, vale conversar com um profissional.

O que Jung pensava dos dicionários de sonhos?

Jung via como tolice confiar em guias prontos que traduzem cada símbolo por um sentido fixo: para ele, nenhuma imagem do sonho pode ser separada de quem sonhou. Os livros dos sonhos podem servir de ponto de partida para refletir, mas não são previsão nem diagnóstico.

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