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A resposta curta

Interpretação de sonho não é previsão do futuro nem diagnóstico. Este texto reúne o que a pesquisa sobre sono observa e o que a leitura popular costuma associar ao tema, sempre identificando cada um.

A ideia de que o sonho de quinta para sexta se realiza é uma crença popular brasileira, sem registro claro de quando ou onde surgiu. Não há estudo mostrando que os sonhos dessa noite se cumprem mais do que os de qualquer outra. O sono não sabe que dia é.

O que pode mudar é a rotina: cansaço acumulado da semana, um happy hour na quinta, um despertar diferente na sexta. Essas mudanças podem deixar o sonho mais vívido ou mais fácil de lembrar, e um sonho bem lembrado parece mais importante. Para a pergunta maior, se sonhos preveem fatos, veja sonhei e aconteceu: por que parece premonição.

Leia também: Por que esquecemos os sonhos e Hábitos noturnos para dormir melhor.

De onde pode ter vindo essa crença

Não existe documento conhecido que marque o nascimento dessa ideia, e qualquer data ou autor apontado como origem deve ser visto com desconfiança. O que dá para fazer é levantar hipóteses do senso comum, sem tratá-las como fato.

Hipótese 1: o peso da sexta-feira na tradição cristã. A Sexta-feira Santa lembra a morte de Jesus, e por muito tempo a sexta foi dia de jejum ou de abstinência de carne entre católicos. É possível que esse peso simbólico tenha emprestado à noite anterior um ar de importância. Mas não há registro que ligue as duas coisas.

Hipótese 2: crenças sobre dias da semana são comuns. Em várias culturas há dias considerados de sorte, de azar ou de aviso, como a fama da sexta-feira 13 no Ocidente. A crença da quinta para sexta pode ser mais uma dessas, passada adiante pela conversa em família.

As duas hipóteses ajudam a entender por que a frase pega, mas nenhuma delas prova de onde ela veio.

O que a ciência diz sobre o dia da semana

Não há estudo específico sobre sonhos de quinta para sexta. O que se sabe sobre o sono vale para qualquer noite: ele passa por vários ciclos, e a fase REM, a mais ligada a sonhos vívidos, volta algumas vezes. William Dement e Edward Wolpert, em 1958, mostraram que pessoas acordadas nessa fase costumam relatar sonhos e que estímulos de fora, como gotas de água ou sons, podem entrar na história.

Michael Schredl e Friedrich Hofmann, em 2003, observaram que os sonhos acompanham o que ocupa a vida acordada. Ou seja, o conteúdo do sonho de quinta reflete a sua quinta, a sua semana, as suas preocupações. O calendário em si não entra na conta.

Fontes: Dement e Wolpert, Journal of Experimental Psychology, 1958; Schredl e Hofmann, Continuity between waking activities and dream activities, Consciousness and Cognition, 2003.

Veja também: Diário de sonhos e Sonhamos em cores ou em preto e branco?.

O que muda de verdade na noite de quinta

Se algo é diferente nessa noite, é o seu jeito de viver a semana. Alguns exemplos:

  • Cansaço acumulado: depois de quatro dias de trabalho, muita gente dorme mais pesado ou mais tarde, e o sono fica mais irregular.
  • Álcool na quinta à noite: o álcool costuma deixar o sono mais agitado na segunda metade da noite, com mais despertares e sonhos que parecem mais intensos.
  • Acordar e lembrar: Raphael Vallat e colegas, em 2017, viram que quem lembra mais dos sonhos tem mais despertares longos durante a noite, e propuseram que acordar por cerca de dois minutos ajuda a guardar o sonho na memória. Uma noite mais picada pode, assim, deixar mais sonhos para contar.
  • Prestar atenção: Michael Schredl, em 2002, observou que manter um diário de sonhos aumentou a lembrança em pessoas que lembravam pouco ou medianamente. Quem acredita que o sonho de quinta vale mais presta mais atenção na sexta de manhã e, sem perceber, lembra mais.

Se você acorda várias vezes de madrugada, leia por que você acorda várias vezes de madrugada.

Fontes: Vallat e colegas, Increased evoked potentials to arousing auditory stimuli during sleep, Frontiers in Human Neuroscience, 2017; Schredl, Questionnaires and diaries as research instruments in dream research, Dreaming, 2002.

Freud, Jung e a fé sobre essa noite

Na psicanálise de Freud. Freud não fala de dias da semana, mas relata que, já na Antiguidade, se separavam os sonhos "verdadeiros", enviados para avisar ou predizer, dos sonhos vãos e enganosos. Ele cita uma classificação atribuída a Macróbio e Artemidoro que dividia os sonhos entre os que só refletem o presente ou o passado e os que diriam algo do futuro. A crença da quinta para sexta lembra esse velho desejo de saber quais sonhos "valem", embora não haja ligação histórica comprovada entre as duas.

Na psicologia de Jung. Para Jung, o sonho costuma compensar o que a vida consciente deixa de lado. Na chave junguiana, o que importa é a imagem e o momento de quem sonha, e não a data. Um sonho marcante na sexta pode estar falando do peso da semana que termina.

Nos símbolos e na fé. Nos relatos de sonhos mais conhecidos da Bíblia, de José do Egito, de Daniel e de José de Nazaré, o dia da semana não aparece. Muitos cristãos lembram disso para dizer que o que importa é o discernimento, não a noite em que o sonho veio. Veja sonhos na Bíblia.

Para juntar as duas leituras. A ciência e a fé concordam num ponto: o calendário não dá peso ao sonho. O que ele traz merece a mesma calma, seja de quinta, seja de domingo.

Fontes: Freud, Die Traumdeutung, 1900; Jung (org.), O homem e seus símbolos; Bíblia Sagrada (Gênesis 37, 40 e 41; Daniel 2, 4 e 7; Mateus 1 e 2).

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Se o sonho de quinta deixou você preocupado

  • Anote o sonho com a data: se ele se "cumprir", você vai poder comparar com o que escreveu, e não com a lembrança ajustada depois.
  • Pergunte de onde ele veio: pense no que aconteceu na sua quinta e no que preocupa você nesta semana.
  • Não decida nada só pelo sonho: mudar planos por causa de uma noite específica tende a aumentar a ansiedade.
  • Cuide da rotina: menos álcool e horário regular na quinta deixam o sono mais tranquilo.

Se o sonho foi um pesadelo que se repete, veja como ter menos pesadelos.

O que a crença popular diz

Na leitura popular, o sonho de quinta para sexta "se realiza", e por isso é o que mais se conta no café da manhã e nos grupos de família. Quando o sonho é bom, vira esperança; quando é ruim, vira preocupação. São tradições de conversa, não previsões. Veja o que o significado dos sonhos quer dizer segundo a ciência e a cultura.

Conteúdo informativo. Não substitui orientação médica, financeira ou profissional individualizada.

Fontes

  1. Dement W, Wolpert EA. The relation of eye movements, body motility, and external stimuli to dream content. Journal of Experimental Psychology, 1958. https://doi.org/10.1037/h0040031
  2. Schredl M, Hofmann F. Continuity between waking activities and dream activities. Consciousness and Cognition, 2003. https://doi.org/10.1016/S1053-8100(02)00072-7
  3. Vallat R, Lajnef T, Eichenlaub JB, Berthomier C, Jerbi K, Morlet D, Ruby PM. Increased Evoked Potentials to Arousing Auditory Stimuli during Sleep: Implication for the Understanding of Dream Recall. Frontiers in Human Neuroscience, 2017; 11: 132. https://doi.org/10.3389/fnhum.2017.00132
  4. Schredl M. Questionnaires and diaries as research instruments in dream research: Methodological issues. Dreaming, 2002; 12: 17-26. https://doi.org/10.1023/a:1013890421674
  5. Freud S. The Interpretation of Dreams (Die Traumdeutung), 1900. Project Gutenberg. https://www.gutenberg.org/ebooks/66048
  6. Jung CG (org.). O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/HarperCollins Brasil (original: Man and His Symbols, 1964). https://www.skoob.com.br/book/8435
  7. Bíblia Sagrada. Gênesis 37, 40 e 41; Daniel 2, 4 e 7; Mateus 1 e 2.

Perguntas frequentes

Sonho de quinta para sexta se realiza?

Não há estudo mostrando isso. É uma crença popular brasileira. O que pode mudar nessa noite é a rotina, que às vezes deixa o sonho mais vívido ou mais fácil de lembrar.

De onde vem a crença do sonho de quinta para sexta?

Não há registro claro da origem. Uma hipótese é o peso simbólico da sexta-feira na tradição cristã; outra é que crenças sobre dias da semana existem em várias culturas. Nenhuma das duas está comprovada.

Por que lembro mais dos sonhos na sexta?

Cansaço, álcool na quinta e despertares durante a noite podem aumentar a lembrança. Prestar mais atenção ao sonho por causa da crença também ajuda a lembrar.

Sonhei algo ruim de quinta para sexta. O que faço?

Anote o sonho, pense no que está preocupando você e evite decisões baseadas só nele. Se os pesadelos se repetem, converse com um profissional de saúde.

A Bíblia fala de sonho de quinta para sexta?

Não. Nos sonhos mais conhecidos da Bíblia, o dia da semana não aparece. Muitas igrejas orientam a avaliar qualquer sonho com oração e discernimento, sem dar peso especial à data.

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