A resposta curta
Interpretação de sonho não é previsão do futuro nem diagnóstico. Este texto reúne o que a pesquisa sobre sono observa e o que a leitura popular costuma associar ao tema, sempre identificando cada um.
Pesadelos aparecem em todas as fases da infância. Na pré-escola, o que se sabe vem sobretudo do relato dos pais; na idade escolar, a criança já conta o sonho com detalhes; e há indícios de que a frequência chegue ao ponto mais alto por volta dos 10 anos. Na maioria dos casos, eles não indicam problema. O que mais ajuda é ouvir, acolher sem ridicularizar e manter noites calmas e previsíveis.
Vale procurar o pediatra quando os pesadelos são muito frequentes, atrapalham o sono e o dia ou chegam junto com ansiedade forte e outros problemas de sono. E nem todo susto noturno é pesadelo: a criança que grita sem acordar de verdade e não lembra de nada pela manhã pode estar tendo um terror noturno, que é outra coisa.
Leia também: Pesadelos: por que acontecem e como diminuir e Sonhar com criança.
De 2 a 5 anos: os primeiros sonhos ruins
Um grande estudo sobre essa idade acompanhou 987 crianças da província de Quebec, no Canadá, dos 5 meses aos 6 anos, com base no que as mães relatavam. Simard e colegas publicaram os resultados em 2008, e a primeira surpresa foi que os sonhos ruins frequentes eram menos comuns do que se imaginava: segundo as mães, atingiam de 1,3% a 3,9% das crianças ao longo das idades avaliadas.
Quando apareciam, porém, tendiam a se manter: a melhor pista de sonhos ruins num ano era tê-los tido antes. Temperamento difícil aos 5 meses e ansiedade aos 17 meses estavam entre os fatores de risco. Um detalhe chama a atenção de quem cuida: acolher a criança com carinho quando ela acordava no meio da noite apareceu como fator de proteção, aos 29 e aos 41 meses. Já o consolo emocional na hora de pegar no sono, aos 29 meses, apareceu como fator de risco. São associações, não receitas.
Nessa idade, nem sempre é fácil para a criança separar o que sonhou do que aconteceu, e ela pode jurar que o bicho estava mesmo no quarto. Discutir não ajuda; acolher, sim. Muito disso vai se apagar com o tempo, como explica o texto sobre por que não lembramos dos primeiros anos de vida.
Fonte: Simard e colegas, Longitudinal study of bad dreams in preschool-aged children, Sleep, 2008.
De 6 a 9 anos: medos que ganham história
Na idade escolar, a criança passa a contar o pesadelo com começo, meio e fim, e os medos acompanham o mundo que ela está descobrindo: a escola, as brigas, as notícias que ouve dos adultos. Os estudos usados aqui não trazem uma porcentagem segura para essa faixa. A revisão de Gauchat, Séguin e Zadra, de 2014, conclui que, qualquer que seja a forma de definir e medir, os pesadelos atingem uma parte significativa das crianças de todas as idades.
A mesma revisão mostra que os pesadelos aparecem associados a estresse e a dificuldades de comportamento, e que ansiedade elevada e outros problemas de sono, como o sonambulismo, estão entre as ligações mais consistentes. Outro ponto importante: os resultados podem mudar conforme quem responde, pais ou crianças.
Se a criança passa a ter medo de ir para a cama, pergunte o que ela sonhou, sem pressa. Muitas vezes o tema tem ligação com algo do dia, e cenas como ser perseguido ou ver fantasmas são frequentes também entre adultos.
Veja também: Sonhos na Bíblia e Sonhos na gravidez.
Pré-adolescentes: o pico perto dos 10 anos
Segundo a revisão de Gauchat, Séguin e Zadra, há alguma evidência de que a frequência de pesadelos atinja o ponto mais alto por volta dos 10 anos. Entre os 10 e os 15, começa a aparecer uma diferença entre os sexos: as meninas passam a relatar mais pesadelos do que os meninos.
Nessa fase, o pré-adolescente nem sempre conta que teve pesadelo, por vergonha de parecer criança. Sinais indiretos ajudam: demora para dormir, celular até tarde, cansaço de manhã, vontade de dormir com a luz acesa.
Os pesadelos de infância também podem marcar por muito tempo. Em 2018, Schredl e Göritz fizeram um estudo on-line que comparou os pesadelos mais recentes de adultos com os pesadelos de infância de que eles se lembravam. Que adultos ainda descrevam esses sonhos anos depois mostra o quanto eles podem marcar.
Fontes: Gauchat, Séguin e Zadra, Prevalence and correlates of disturbed dreaming in children, Pathologie Biologie, 2014; Schredl e Göritz, Nightmare Themes, Journal of Clinical Sleep Medicine, 2018.
Pesadelo ou terror noturno?
No pesadelo, a criança acorda de fato, reconhece quem chega, consegue contar o que sonhou e quer colo. Ele costuma acontecer na segunda metade da noite, quando os períodos de sono REM são mais longos. No terror noturno, a criança grita, se agita ou parece apavorada, mas não está realmente acordada: às vezes nem reconhece os pais, é difícil de consolar e, pela manhã, não lembra de nada. Ele costuma vir nas primeiras horas, durante o sono profundo.
No pesadelo, o caminho é acolher. No terror noturno, em geral o melhor é ficar por perto, garantir que a criança não se machuque e não tentar acordá-la à força. A diferença completa está em terror noturno: o que é e como diferenciar de pesadelo.
Como acolher a criança depois de um pesadelo
- Vá até ela e ouça. Deixe que conte o sonho, se quiser. Frases curtas como "foi um sonho, você está segura aqui" ajudam mais do que explicações longas.
- Não ridicularize nem minimize. O medo foi real para ela, mesmo que o monstro não seja. Evite piadas e frases como "isso é bobagem".
- Ajude a voltar a dormir no ritmo dela. Um gole de água, ajeitar o cobertor, ficar alguns minutos por perto. No estudo de Simard e colegas, o acolhimento depois dos despertares noturnos esteve associado a menos sonhos ruins nos pequenos.
- Mantenha uma rotina calma. Horário parecido para deitar, banho, história, luz baixa. A previsibilidade acalma.
- Limite telas e conteúdo assustador à noite. Filmes de terror, vídeos tensos e conversas pesadas perto da hora de dormir costumam reaparecer nos sonhos.
- Use uma luz suave, se ela pedir. Uma luz de presença fraca pode dar segurança sem atrapalhar o sono.
- Durante o dia, mude o final. Desenhar o sonho e inventar juntos outro desfecho é uma brincadeira simples. A revisão de Gauchat e colegas cita resultados promissores com uma técnica parecida, o ensaio de imagens, mas em poucos estudos com crianças; quando os pesadelos são frequentes, ela deve ser orientada por um profissional.
Veja também hábitos noturnos para dormir melhor.
Fontes: Simard e colegas, Longitudinal study of bad dreams in preschool-aged children, Sleep, 2008; Gauchat, Séguin e Zadra, Prevalence and correlates of disturbed dreaming in children, Pathologie Biologie, 2014.
Quando falar com o pediatra
Procure o pediatra se:
- os pesadelos acontecem várias vezes por semana por um período longo;
- a criança passa a ter medo de dormir, recusa o próprio quarto ou fica cansada e irritada durante o dia;
- os pesadelos começaram depois de um acontecimento difícil, como uma perda, uma mudança brusca ou uma situação de violência;
- há também ronco alto, pausas na respiração, sonambulismo frequente ou episódios que parecem terror noturno;
- a ansiedade aparece em outros momentos, não só à noite.
O pediatra pode avaliar o sono como um todo e, se for o caso, indicar um psicólogo infantil. As orientações para tratar pesadelos em adultos não valem automaticamente para crianças: o caminho deve vir de quem acompanha a criança. Se alguém da família estiver em sofrimento intenso, o CVV atende pelo 188, ligação gratuita, 24 horas. Veja o que o significado dos sonhos quer dizer segundo a ciência e a cultura.
Fontes
- Simard V, Nielsen TA, Tremblay RE, Boivin M, Montplaisir JY. Longitudinal Study of Bad Dreams in Preschool-Aged Children: Prevalence, Demographic Correlates, Risk and Protective Factors. Sleep, 2008; 31(1): 62-70. https://doi.org/10.1093/sleep/31.1.62
- Gauchat A, Séguin JR, Zadra A. Prevalence and correlates of disturbed dreaming in children. Pathologie Biologie, 2014; 62: 311-318. https://doi.org/10.1016/j.patbio.2014.05.016
- Schredl M, Göritz AS. Nightmare Themes: An Online Study of Most Recent Nightmares and Childhood Nightmares. Journal of Clinical Sleep Medicine, 2018. https://doi.org/10.5664/jcsm.7002
Perguntas frequentes
É normal criança ter pesadelo toda noite?
Pesadelos de vez em quando são comuns em todas as idades. Toda noite, por semanas, já merece conversa com o pediatra, principalmente se a criança passa a ter medo de dormir ou fica cansada durante o dia.
Com que idade os pesadelos começam?
Os pais costumam notar sonhos ruins já nos primeiros anos. Um grande estudo canadense registrou sonhos ruins relatados pelas mães por volta dos 2 anos e meio (29 meses), a primeira idade em que eles foram avaliados.
Devo deixar a criança dormir na minha cama depois de um pesadelo?
Não há regra única. O mais importante é acolher e ajudar a criança a se acalmar. Muitas famílias preferem ficar um pouco no quarto dela até que volte a dormir, para manter a rotina.
Qual a diferença entre pesadelo e terror noturno?
No pesadelo, a criança acorda, lembra do sonho e busca colo. No terror noturno, ela grita ou se agita sem estar realmente acordada e não lembra de nada pela manhã.
Desenho e filme de terror causam pesadelo?
Conteúdos assustadores perto da hora de dormir costumam reaparecer nos sonhos. Não é preciso proibir tudo, mas vale escolher o que a criança vê à noite e conversar sobre o que a assustou.