A resposta curta
Interpretação de sonho não é previsão do futuro nem diagnóstico. Este texto reúne o que a pesquisa sobre sono observa e o que a leitura popular costuma associar ao tema, sempre identificando cada um.
Esquecemos os sonhos porque o cérebro adormecido não grava bem o que vive, e o pouco que fica se perde nos primeiros minutos depois de acordar, quando a atenção vai para o dia. A pesquisa mostra que quem lembra muito tem um funcionamento cerebral um pouco diferente e acorda por mais tempo durante a noite, o que dá chance de o sonho ser guardado.
A boa notícia é que a lembrança melhora com prática. Prestar atenção aos sonhos e anotá-los aumenta o número de sonhos lembrados, principalmente em quem lembra pouco. Se você quer entender antes para que serve sonhar, veja por que sonhamos.
Leia também: Diário de sonhos: como fazer e Sonho lúcido.
Por que o sonho escapa tão rápido
William Dement e Edward Wolpert, em 1958, mostraram que pessoas acordadas durante a fase REM costumam relatar sonhos. Ou seja, sonhamos várias vezes por noite, mas só ficamos sabendo dos sonhos quando acordamos no meio deles ou logo depois.
Raphael Vallat e colegas, em 2017, acompanharam uma noite inteira de sono no laboratório, com sons tocados durante a noite. Respostas maiores do cérebro aos sons levavam a despertares, e quem lembrava muitos sonhos não tinha mais microdespertares que os outros, mas acordava mais vezes por mais tempo. Os autores propõem que é preciso ficar acordado por cerca de dois minutos para o sonho passar para a memória de longo prazo. Quem dorme direto até o despertador, e levanta correndo, quase não dá essa chance ao cérebro.
Fontes: Dement e Wolpert, Journal of Experimental Psychology, 1958; Vallat e colegas, Increased evoked potentials to arousing auditory stimuli during sleep, Frontiers in Human Neuroscience, 2017.
Quem lembra muito e quem lembra pouco
Jean-Baptiste Eichenlaub e colegas, em 2014, compararam pessoas que lembravam em média cerca de cinco sonhos por semana com pessoas que lembravam cerca de meio sonho por semana. Usando exames de imagem, viram que os bons lembradores tinham mais atividade em duas regiões do cérebro, a junção temporoparietal e o córtex pré-frontal medial, tanto dormindo quanto acordados em repouso.
Segundo os autores, mais atividade nessas áreas pode favorecer as imagens do sonho, a gravação na memória e a atenção a estímulos de fora durante o sono, o que leva a pequenos despertares. Em resumo: lembrar pouco não é defeito, é um jeito diferente de o cérebro funcionar, e não quer dizer que você não sonhe.
Veja também: Sonho de quinta para sexta e Sonhamos em cores ou em preto e branco?.
Anotar muda a lembrança
Michael Schredl, em 2002, pediu que 285 pessoas respondessem a um questionário e mantivessem um diário de sonhos por duas semanas. O diário aumentou a lembrança em quem lembrava pouco ou medianamente. Curiosamente, em quem já lembrava muito, ela diminuiu.
David Aspy, em 2016, investigou por que os questionários costumam indicar menos sonhos do que os diários. A conclusão foi dupla: quando perguntamos de memória, subestimamos quantos sonhos lembramos, e manter um diário de fato aumenta a lembrança. Em outras palavras, você provavelmente já lembra mais do que acha, e pode lembrar ainda mais.
Fontes: Schredl, Questionnaires and diaries as research instruments in dream research, Dreaming, 2002; Aspy, Is dream recall underestimated by retrospective measures and enhanced by keeping a logbook?, Consciousness and Cognition, 2016.
Passo a passo para lembrar mais
- Decida antes de dormir: diga a si mesmo, com calma, que quer lembrar do sonho. A intenção direciona a atenção ao acordar.
- Deixe papel e caneta perto da cama: o celular acende a tela e puxa notificações, que apagam o sonho em segundos.
- Acorde sem pressa: se puder, use um despertador mais suave ou programe alguns minutos a mais.
- Fique parado e de olhos fechados: antes de se mexer, volte à última cena e puxe o fio para trás.
- Anote na hora: mesmo que seja só uma palavra-chave, como "escada" ou "tia". Ela costuma trazer o resto de volta.
- Registre também a sensação: medo, alívio, saudade. A emoção ajuda a reencontrar a história.
- Faça isso por algumas semanas: a lembrança tende a crescer com a prática.
Para um modelo pronto, veja como montar um diário de sonhos. Quem treina a lembrança também dá o primeiro passo para o sonho lúcido.
Quando lembrar demais pede atenção
Lembrar muitos sonhos, por si só, não é problema. Mas, como os bons lembradores acordam mais durante a noite, lembrar de repente muito mais do que o normal pode indicar um sono mais picado. Se você acorda cansado, desperta várias vezes ou tem pesadelos frequentes, converse com um médico. Veja também por que você acorda várias vezes de madrugada e como ter menos pesadelos.
O que Freud, a fé e a tradição popular dizem
Freud dedicou uma parte de A interpretação dos sonhos a essa pergunta. Revisando autores anteriores, ele lembra que os sonhos somem pela manhã como as estrelas diante da luz do sol, que são esquecidos por serem fracos, únicos e desordenados, e que quem passa a se interessar por eles lembra mais. Notou ainda que um sonho esquecido pode voltar durante o dia, puxado por algo que se vê ou ouve. Na fé cristã, lembrar ou não de um sonho não muda a relação com Deus: muitas igrejas lembram que a orientação principal vem das Escrituras, da oração e da vida em comunidade.
Na crença popular, esquecer o sonho é às vezes visto como sinal de que "não era para saber", e lembrar como sinal de recado. São leituras de tradição, não previsões. Veja o que o significado dos sonhos quer dizer segundo a ciência e a cultura.
Fonte: Freud, Die Traumdeutung, 1900.
Fontes
- Dement W, Wolpert EA. The relation of eye movements, body motility, and external stimuli to dream content. Journal of Experimental Psychology, 1958. https://doi.org/10.1037/h0040031
- Vallat R, Lajnef T, Eichenlaub JB, Berthomier C, Jerbi K, Morlet D, Ruby PM. Increased Evoked Potentials to Arousing Auditory Stimuli during Sleep: Implication for the Understanding of Dream Recall. Frontiers in Human Neuroscience, 2017; 11: 132. https://doi.org/10.3389/fnhum.2017.00132
- Eichenlaub JB, Nicolas A, Daltrozzo J, Redouté J, Costes N, Ruby P. Resting Brain Activity Varies with Dream Recall Frequency Between Subjects. Neuropsychopharmacology, 2014; 39: 1594-1602. https://doi.org/10.1038/npp.2014.6
- Schredl M. Questionnaires and diaries as research instruments in dream research: Methodological issues. Dreaming, 2002; 12: 17-26. https://doi.org/10.1023/a:1013890421674
- Aspy DJ. Is dream recall underestimated by retrospective measures and enhanced by keeping a logbook? An empirical investigation. Consciousness and Cognition, 2016; 42: 181-203. https://doi.org/10.1016/j.concog.2016.03.015
- Freud S. The Interpretation of Dreams (Die Traumdeutung), 1900. Project Gutenberg. https://www.gutenberg.org/ebooks/66048
Perguntas frequentes
Por que esqueço meus sonhos logo que acordo?
Porque o cérebro grava mal o que vive durante o sono, e o pouco que fica se perde quando a atenção vai para o dia. Levantar correndo e pegar o celular aceleram o esquecimento.
É normal não lembrar de nenhum sonho?
Sim. Muita gente lembra menos de um sonho por semana. Isso não quer dizer que você não sonhe, apenas que os sonhos não chegam à memória.
Por que algumas pessoas lembram tantos sonhos?
Pesquisas mostram que elas têm mais atividade em certas regiões do cérebro e acordam por mais tempo durante a noite, o que dá chance de o sonho ser guardado.
Diário de sonhos funciona mesmo?
Sim. Estudos observaram que manter um diário aumenta a lembrança, principalmente em quem lembra pouco ou medianamente.
Quanto tempo leva para lembrar mais sonhos?
Varia de pessoa para pessoa. No estudo de Schredl, duas semanas de diário já aumentaram a lembrança em quem lembrava pouco.