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A resposta curta

Interpretação de sonho não é previsão do futuro nem diagnóstico. Este texto reúne o que a pesquisa sobre sono observa e o que a leitura popular costuma associar ao tema, sempre identificando cada um.

A maioria das pessoas relata sonhar em cores. Mas uma parte, sobretudo adultos mais velhos que cresceram assistindo à TV e ao cinema em preto e branco, relata mais sonhos em tons de cinza. A pesquisa sugere que o tipo de imagem com que convivemos pode influenciar o que lembramos dos sonhos, e talvez o próprio sonho.

Há ainda um detalhe que muda tudo: muita gente simplesmente não presta atenção à cor e esquece rápido esse tipo de detalhe. Sonhar "sem cor" pode ser, muitas vezes, apenas não lembrar a cor. Para entender o porquê do esquecimento, veja por que esquecemos os sonhos.

Leia também: Por que sonhamos e Diário de sonhos: como fazer.

O que a pesquisa observou

A psicóloga Eva Murzyn, em 2008, quis saber se as diferenças na cor relatada dos sonhos vinham da influência da mídia em preto e branco ou de problemas de método (por exemplo, perguntar de memória em vez de pedir um registro diário). Ela comparou dois grupos de idade, com experiências diferentes de mídia: um que teve acesso a TV e cinema em preto e branco antes da versão colorida, e outro que nunca conviveu com essa mídia.

O resultado: quem teve contato com mídia em preto e branco antes da colorida relatou mais sonhos em tons de cinza do que quem não teve essa exposição. E não houve diferença entre o que as pessoas responderam no questionário e o que anotaram no diário, ou seja, não era só um efeito do jeito de perguntar. A autora também viu diferenças na qualidade da lembrança dos sonhos coloridos e dos sonhos em preto e branco entre os grupos, o que levanta a possibilidade de que sonhos realmente sem cor aconteçam apenas em quem teve experiência com mídia em preto e branco.

Fonte: Murzyn, Do we only dream in colour?, Consciousness and Cognition, 2008.

Por que já se acreditou que sonhávamos em preto e branco

Durante parte do século 20, a ideia de que os sonhos eram em preto e branco foi bastante difundida. O filósofo Eric Schwitzgebel escreveu um artigo inteiro com uma pergunta no título: por que achávamos que sonhávamos em preto e branco? O texto discute a mudança de opinião sobre o tema ao longo do tempo e o que ela revela sobre a confiança que podemos ter no relato dos nossos próprios sonhos.

A pergunta é boa porque mostra um problema real: ninguém consegue "filmar" um sonho. Tudo o que temos é a lembrança, contada depois de acordar, e ela pode ser influenciada pelo que esperamos encontrar, pelas imagens da época e pela forma como a pergunta é feita. Quando a cultura dizia que o sonho era cinza, mais gente lembrava dele assim.

Fonte: Schwitzgebel, Why did we think we dreamed in black and white?, 2002.

Veja também: Animais sonham? O que a ciência já sabe e Sonhar com vulto.

Por que tanta gente não sabe dizer a cor do sonho

Pense na última conversa que você teve na rua. Você lembra da cor do sapato da pessoa? Provavelmente não, e mesmo assim viu o sapato em cores. Com o sonho acontece algo parecido: a atenção vai para o enredo, para quem estava ali e para a emoção. A cor só fica na memória quando tem papel na cena, como o vestido vermelho que chamou atenção ou o mar muito azul.

Além disso, a lembrança do sonho é frágil e se apaga em minutos depois de acordar. Um detalhe como a cor, que não pesou na história, some com facilidade. Nos anos 1950, William Dement e Edward Wolpert acordaram voluntários durante o sono REM, a fase dos movimentos rápidos dos olhos, para colher os relatos ainda frescos. É esse cuidado que a pesquisa precisa ter, e que quase ninguém tem em casa: na correria da manhã, sobra muitas vezes só a sensação geral.

E a vida acordada entra no sonho, como propõe a hipótese da continuidade de Michael Schredl e Friedrich Hofmann: quem trabalha com cor, pinta, fotografa ou desenha roupas tende a reparar mais nela, acordado e dormindo.

Fontes: Dement e Wolpert, Journal of Experimental Psychology, 1958; Schredl e Hofmann, Continuity between waking activities and dream activities, Consciousness and Cognition, 2003.

Como prestar atenção à cor dos seus sonhos

  • Anote logo ao acordar: antes do celular, escreva a cena e acrescente uma linha só para cores, se lembrar de alguma.
  • Pergunte-se de propósito: "de que cor era?" Às vezes a resposta vem; às vezes a cor simplesmente não ficou.
  • Não force: se a cor não veio, anote "não sei". Inventar depois atrapalha o registro.
  • Compare por algumas semanas: o diário de sonhos mostra se a cor aparece mais em certos tipos de sonho, como os mais emocionantes.

Quem treina essa atenção às vezes também passa a perceber outros detalhes, e há quem use isso como porta de entrada para o sonho lúcido.

O que a psicologia, os símbolos e a crença popular dizem das cores

Na psicologia. O método de Freud não dá um significado pronto para cada cor: pede que a pessoa pergunte o que aquele detalhe lembra a ela. O vermelho de um carro pode remeter a um parente, a uma briga ou a uma propaganda vista na véspera. A tradição de Jung segue no mesmo sentido ao dizer que os símbolos de um sonho são pessoais.

Nos símbolos. O Dicionário de símbolos de Chevalier e Gheerbrant inclui as cores entre os temas que estuda, e mostra que o sentido de cada uma varia muito de cultura para cultura: o branco, por exemplo, é ligado à paz em muitos lugares e ao luto em outros. Acordados, também damos peso às cores, como mostram o que a cor favorita pode dizer sobre você e por que o céu é azul.

Na crença popular. O livro dos sonhos, de L. P. Baçan, traz um verbete para "cor": na vida, vitória; no amor, reconciliação. Na leitura popular, o vermelho costuma ser ligado à paixão, o azul à calma e o branco à paz, e um sonho cheio de cores, a fase boa. Se a cena teve um arco-íris, há um texto só para ele. São interpretações da tradição, não previsões. Veja o que o significado dos sonhos quer dizer segundo a ciência e a cultura.

Fontes: Freud, Die Traumdeutung, 1900; Jung (org.), O homem e seus símbolos; Chevalier e Gheerbrant, Dicionário de símbolos; Baçan, O livro dos sonhos, 2014.

Conteúdo informativo. Não substitui orientação médica, financeira ou profissional individualizada.

Fontes

  1. Murzyn E. Do we only dream in colour? A comparison of reported dream colour in younger and older adults with different experiences of black and white media. Consciousness and Cognition, 2008; 17: 1228-1237. https://doi.org/10.1016/j.concog.2008.09.002
  2. Schwitzgebel E. Why did we think we dreamed in black and white? Studies in History and Philosophy of Science Part A, 2002; 33: 649-660. https://doi.org/10.1016/s0039-3681(02)00033-x
  3. Dement W, Wolpert EA. The relation of eye movements, body motility, and external stimuli to dream content. Journal of Experimental Psychology, 1958. https://doi.org/10.1037/h0040031
  4. Schredl M, Hofmann F. Continuity between waking activities and dream activities. Consciousness and Cognition, 2003. https://doi.org/10.1016/S1053-8100(02)00072-7
  5. Freud S. The Interpretation of Dreams (Die Traumdeutung), 1900. Project Gutenberg. https://www.gutenberg.org/ebooks/66048
  6. Jung CG (org.). O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/HarperCollins Brasil (original: Man and His Symbols, 1964). https://www.skoob.com.br/book/8435
  7. Chevalier J, Gheerbrant A. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Rio de Janeiro: José Olympio (edição atual: Record, 2020). https://www.record.com.br/products/dicionario-de-simbolos
  8. Baçan LP. O livro dos sonhos. Edição do autor, 2014.

Perguntas frequentes

Todo mundo sonha em cores?

A maioria das pessoas relata sonhos coloridos. Uma parte relata sonhos em tons de cinza, com mais frequência entre adultos mais velhos que conviveram com TV e cinema em preto e branco.

Sonhar em preto e branco é sinal de problema?

Não. Não há indicação de que sonhar sem cor signifique doença. Muitas vezes a pessoa apenas não lembra a cor, que é um dos detalhes que mais se perdem ao acordar.

Por que antigamente se dizia que sonhamos em preto e branco?

Em meados do século 20 essa ideia era comum, e filósofos e psicólogos discutem se a mídia da época influenciou o jeito de lembrar os sonhos ou até os próprios sonhos.

Dá para treinar a lembrar das cores do sonho?

Dá para tentar. Anotar o sonho logo ao acordar, com uma linha só para cores, tende a aumentar a lembrança de detalhes. Se a cor não vier, registre que não lembra, sem inventar.

Como saber se eu sonho em cores?

Mantenha um diário por algumas semanas e anote, logo ao acordar, se lembra de alguma cor. O registro diário é mais confiável do que tentar lembrar de cabeça.

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