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Todo mundo sonha

Mesmo quem diz que nunca sonha costuma sonhar várias vezes por noite. A diferença está em lembrar. Por muito tempo se pensou que os sonhos aconteciam só no sono REM, a fase em que os olhos se movem rápido sob as pálpebras. Hoje se sabe que também sonhamos em outras fases, embora os sonhos do REM costumem ser mais longos e vívidos.

Onde o cérebro sonha

Pesquisadores de universidades da Suíça e dos Estados Unidos acordaram voluntários várias vezes durante a noite e perguntaram se estavam sonhando, enquanto registravam a atividade cerebral com eletroencefalograma de alta densidade. Eles identificaram uma área na parte de trás do cérebro, chamada por eles de zona quente posterior, cuja atividade indicava se a pessoa estava sonhando, tanto no sono REM quanto fora dele. O padrão era tão claro que os pesquisadores conseguiam prever, só pelo sinal, se o voluntário relataria um sonho.

Fonte: Siclari e colegas, The neural correlates of dreaming, Nature Neuroscience, 2017.

Freud, Jung e a fé diante desse sonho

Na psicanálise de Freud. Sonhamos, dizia Freud, para realizar desejos: o sonho seria a realização disfarçada de um desejo suprimido ou recalcado. A própria língua, notava ele, já trata o sonho assim: diante de uma alegria inesperada, dizemos que nem nos sonhos mais fantásticos imaginaríamos aquilo. Para ele, o sonho também guardava o sono.

Na psicologia de Jung. Jung discordava. A ideia do sonho como guardião do sono o deixava cético, porque, escreveu, os sonhos estão sempre a perturbar o sono. Também não via disfarce nas imagens: "Assim como uma planta produz flores, assim a psique cria os seus símbolos." Para ele, a função geral dos sonhos é tentar restabelecer a nossa balança psicológica, compensando o que a vida acordada exagera ou esquece.

Nos símbolos e na fé. No Egito antigo, lembram Chevalier e Gheerbrant no Dicionário de símbolos, um livro de sabedoria dizia que o deus criou os sonhos para indicar o caminho aos homens quando eles não podem ver o futuro. Na Bíblia, Jó 33:14-16 diz que Deus fala "em sonho ou em visão de noite, quando cai sono profundo sobre os homens". E O livro dos sonhos, de L. P. Baçan, dá ao próprio verbete "sonho" uma leitura otimista: na vida, êxito nas atividades; no amor, felicidade.

Para juntar as duas leituras. Num povo da África Ocidental, Jung ouviu que os sonhos das pessoas comuns não querem dizer nada; só contavam os dos chefes e curandeiros. Para ele, era a mesma atitude de quem hoje acha os próprios sonhos sem sentido apenas porque não os entende. A ciência explica como o cérebro monta o sonho com memórias e emoções; a teoria e a fé perguntam o que ele quer dizer. Uma resposta não anula a outra, como mostra o guia sobre o significado dos sonhos.

Fontes: Freud, Die Traumdeutung, 1900; Jung (org.), O homem e seus símbolos; Chevalier e Gheerbrant, Dicionário de símbolos; L. P. Baçan, O livro dos sonhos, 2014.

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Sonhar ajuda a aprender?

Em um experimento publicado na Current Biology, voluntários treinaram um jogo de labirinto em realidade virtual e depois tiraram um cochilo. Quem relatou ter sonhado com a tarefa foi muito melhor ao repetir o labirinto do que quem não sonhou com ela. Para os autores, o sonho pode ser um sinal de que o cérebro está reprocessando e fortalecendo o que acabou de aprender.

Fonte: Wamsley e colegas, Dreaming of a Learning Task Is Associated with Enhanced Sleep-Dependent Memory Consolidation, Current Biology, 2010.

Por que esquecemos os sonhos

Ao acordar, o sonho some depressa se não for registrado. Quem quer lembrar mais pode deixar papel ao lado da cama e anotar tudo nos primeiros minutos, antes de pegar o celular. Acordar de repente, no meio de um sonho, também aumenta as chances de lembrar.

Sonhos têm significado?

Não há base científica para dicionários de sonhos que prometem prever o futuro. O que os estudos mostram é que os sonhos misturam memórias recentes, emoções e preocupações. Pesadelos frequentes que atrapalham o sono merecem conversa com um profissional de saúde. Veja também hábitos noturnos para dormir melhor e por que não lembramos dos primeiros anos de vida.

Conteúdo informativo. Não substitui orientação médica, financeira ou profissional individualizada.

Leia também: sonho lúcido, segundo a ciência; Sonhar com filho.

Fontes

  1. Siclari F et al. The neural correlates of dreaming. Nature Neuroscience, 2017. https://doi.org/10.1038/nn.4545
  2. Wamsley EJ et al. Dreaming of a Learning Task Is Associated with Enhanced Sleep-Dependent Memory Consolidation. Current Biology, 2010. https://doi.org/10.1016/j.cub.2010.03.027
  3. Freud S. The Interpretation of Dreams (Die Traumdeutung), 1900. Project Gutenberg. https://www.gutenberg.org/ebooks/66048
  4. Jung CG (org.). O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/HarperCollins Brasil (original: Man and His Symbols, 1964). https://www.skoob.com.br/book/8435
  5. Chevalier J, Gheerbrant A. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Rio de Janeiro: José Olympio (edição atual: Record, 2020). https://www.record.com.br/products/dicionario-de-simbolos
  6. Baçan LP. O livro dos sonhos. Edição do autor, 2014.

Perguntas frequentes

Todo mundo sonha?

Praticamente sim. Quem diz que não sonha geralmente só não lembra dos sonhos ao acordar.

Só sonhamos no sono REM?

Não. Estudos mostram que também sonhamos em outras fases do sono, embora os sonhos do REM costumem ser mais vívidos.

Sonhar ajuda a memória?

Um estudo mostrou que quem sonhou com uma tarefa recém-aprendida se saiu melhor depois, o que sugere relação com a consolidação da memória.

Como lembrar dos sonhos?

Anote tudo logo ao acordar, antes de pegar o celular. Um caderno ao lado da cama ajuda.

Por que sonhamos, segundo Freud e Jung?

Para Freud, o sonho realiza de forma disfarçada um desejo suprimido e protege o sono. Para Jung, ele tenta restabelecer o equilíbrio psicológico, compensando o que a vida acordada exagera ou esquece. São teorias influentes, não fatos comprovados; a pesquisa atual mostra que os sonhos misturam memórias recentes, emoções e preocupações.

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