A resposta curta
Interpretação de sonho não é previsão do futuro nem diagnóstico. Este texto reúne o que a pesquisa sobre sono observa e o que a leitura popular costuma associar ao tema, sempre identificando cada um.
Na gravidez, muitas mulheres dizem lembrar mais sonhos, e esses sonhos tendem a girar em torno do bebê, do parto e da própria maternidade. As causas mais prováveis se somam: o sono fica mais interrompido, e quem acorda mais vezes tem mais chance de guardar o que estava sonhando; a cabeça está ocupada com uma mudança enorme; e o corpo passa por alterações hormonais e de sono que a pesquisa ainda não explica por inteiro.
Sonhos estranhos ou assustadores nessa fase são comuns e não dizem nada sobre a saúde do bebê nem sobre como será o parto. Eles merecem atenção quando viram pesadelos frequentes, tiram o sono ou chegam junto com uma tristeza que não passa. Para o significado dos sonhos com o bebê em si, veja sonhar com bebê ou gravidez.
Leia também: Sonhar com parto e Sonhar com bebê recém-nascido.
O que a pesquisa observa nos sonhos de grávidas
Um dos estudos mais cuidadosos sobre o tema é o de Lara-Carrasco e colegas, publicado em 2013. Os autores lembram que pesquisas anteriores tinham falhas de método e compararam grávidas no início e no fim do terceiro trimestre com mulheres que não estavam grávidas. Todas anotaram os sonhos em casa por 14 dias, e os relatos foram avaliados por pessoas que não sabiam de quem eram.
O resultado: as grávidas sonharam mais vezes consigo mesmas como mães ou com bebês e crianças, e mais com gravidez, parto e feto. O parto apareceu mais no fim do terceiro trimestre do que no começo. No fim da gestação, o bebê dos sonhos ficou menos definido, com menos detalhes. As grávidas também tiveram mais elementos mórbidos nos sonhos, e os autores ligam esse tom mais pesado aos desafios psicológicos da gravidez. Isso não é um aviso sobre o bebê.
A leitura deles é que o sonho acompanha, à noite, o trabalho que a mulher faz de dia: refazer a imagem de si como mãe e imaginar um filho que ainda não conhece.
Depois do parto: sonhar com o bebê em perigo
Nielsen e Paquette, em 2007, ouviram mulheres que tinham acabado de dar à luz (os questionários foram respondidos ainda no hospital, nas primeiras 48 horas), grávidas e mulheres que nunca tinham engravidado. A maioria das participantes de todos os grupos lembrava sonhos. Grávidas e recém-mães relataram sonhos e pesadelos com o bebê na mesma proporção, mas as mães no pós-parto contaram mais vezes que esses sonhos tinham ansiedade e mostravam o bebê em perigo.
Muitas também tinham comportamentos durante o sonho: se mexer, falar, expressar emoção. Entre as recém-mães, esses episódios vinham ligados a ansiedade e confusão ao acordar e à necessidade de conferir se o bebê estava bem. Por exemplo, a mãe pode acordar procurando o bebê entre os lençóis, mesmo com ele dormindo no berço. Os autores sugerem que isso pode refletir a preocupação materna, a interrupção forte do sono, a privação de sono REM e as mudanças hormonais desse período. São hipóteses, não certezas.
Fonte: Nielsen e Paquette, Dream-associated behaviors affecting pregnant and postpartum women, Sleep, 2007.
Veja também: Pesadelos de criança e Sonhos de luto.
Por que os sonhos parecem mais vívidos: causas possíveis
Sono mais interrompido. Vontade de ir ao banheiro, azia, o bebê se mexendo, a dificuldade de achar posição: as noites ficam picadas. E acordar ajuda a lembrar. Em 2017, Vallat e colegas compararam pessoas que lembram muitos sonhos com pessoas que lembram poucos e propuseram que um despertar de cerca de dois minutos seria o mínimo necessário para o sonho ser guardado na memória de longo prazo. O estudo não foi feito com grávidas, mas ajuda a entender o mecanismo: mais despertares longos, mais chances de acordar com uma história inteira na cabeça. Veja também por que você acorda várias vezes de madrugada e por que esquecemos os sonhos.
Mais coisa para processar. A hipótese da continuidade, testada por Schredl e Hofmann em 2003, diz que o que ocupa o dia volta à noite. Na gravidez, o assunto ocupa quase tudo: exames, enxoval, trabalho, dinheiro, o medo do parto, a relação com o parceiro, a própria história como filha.
Corpo em mudança. Hormônios e padrão de sono mudam na gestação e no pós-parto, e Nielsen e Paquette citam essas alterações entre as explicações possíveis para os sonhos desse período. Ainda assim, não há estudo que mostre com clareza qual hormônio faz o quê nos sonhos.
Fontes: Vallat e colegas, Increased evoked potentials to arousing auditory stimuli during sleep, Frontiers in Human Neuroscience, 2017; Schredl e Hofmann, Continuity between waking activities and dream activities, Consciousness and Cognition, 2003; Nielsen e Paquette, Dream-associated behaviors affecting pregnant and postpartum women, Sleep, 2007.
Sonhos que muitas grávidas relatam
| Cena | O que costuma acompanhar |
|---|---|
| Esquecer o bebê em algum lugar | Medo de não dar conta, sobrecarga, responsabilidade que ainda parece grande demais |
| Parto que começa antes da hora ou longe do hospital | Data se aproximando, sensação de despreparo |
| Bebê com aparência pouco definida | Um filho esperado e ainda desconhecido; as imagens ficam menos definidas no fim da gravidez |
| O bebê em perigo | Preocupação natural, especialmente nas primeiras semanas depois do parto |
| Voltar a ser criança ou sonhar com a própria mãe | Revisão da própria história como filha diante da nova fase |
A tabela reúne relatos comuns de grávidas. Só duas linhas têm apoio direto nos estudos citados: o bebê em perigo e a imagem do bebê menos definida no fim da gravidez. Nenhuma dessas cenas prevê o que vai acontecer.
Fontes: Lara-Carrasco e colegas, Maternal representations in the dreams of pregnant women, Frontiers in Psychology, 2013; Nielsen e Paquette, Dream-associated behaviors affecting pregnant and postpartum women, Sleep, 2007.
O que ajuda nas noites de sonho intenso
- Contar o sonho. Falar com o parceiro, com uma amiga ou anotar ao acordar costuma tirar parte da carga da cena. Se quiser registrar, use um diário de sonhos.
- Uma rotina calma antes de deitar. Luz baixa, telas e notícias tensas longe da cama, horário parecido para dormir. Veja hábitos noturnos para dormir melhor sem remédio.
- Ensaiar outro final. Para pesadelos que se repetem, a medicina do sono recomenda em adultos a terapia de ensaio de imagens: reescrever o final do sonho acordada e repassar a nova versão. Quando os pesadelos são frequentes, o ideal é fazer isso com orientação profissional.
- Nada de remédio, chá ou suplemento por conta própria. Na gravidez e na amamentação, qualquer coisa para dormir passa antes pelo obstetra.
Fonte: Morgenthaler e colegas, Journal of Clinical Sleep Medicine, 2018.
Quando conversar com o obstetra
Conte ao obstetra, na consulta de pré-natal ou antes dela, se:
- os pesadelos acontecem várias vezes por semana ou fazem você ter medo de dormir;
- a insônia está deixando você exausta durante o dia;
- você se levanta, fala alto ou se debate dormindo com frequência;
- a tristeza, a ansiedade ou a irritação continuam por semanas, na gravidez ou depois do parto.
Tristeza persistente depois do parto pode ser depressão pós-parto, que não é culpa de ninguém e tem tratamento. O obstetra, o médico de família ou um psicólogo podem orientar o caminho. Se o sofrimento ficar intenso, procure ajuda no mesmo dia: o CVV atende pelo 188, ligação gratuita, 24 horas. Para entender melhor os sonhos ruins, veja pesadelos: por que acontecem e como diminuir. Veja o que o significado dos sonhos quer dizer segundo a ciência e a cultura.
Fontes
- Lara-Carrasco J, Simard V, Saint-Onge K, Lamoureux-Tremblay V, Nielsen T. Maternal representations in the dreams of pregnant women: a prospective comparative study. Frontiers in Psychology, 2013; 4: 551. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2013.00551
- Nielsen T, Paquette T. Dream-associated Behaviors Affecting Pregnant and Postpartum Women. Sleep, 2007; 30(9): 1162-1169. https://doi.org/10.1093/sleep/30.9.1162
- Vallat R, Lajnef T, Eichenlaub JB, Berthomier C, Jerbi K, Morlet D, Ruby PM. Increased Evoked Potentials to Arousing Auditory Stimuli during Sleep: Implication for the Understanding of Dream Recall. Frontiers in Human Neuroscience, 2017; 11: 132. https://doi.org/10.3389/fnhum.2017.00132
- Schredl M, Hofmann F. Continuity between waking activities and dream activities. Consciousness and Cognition, 2003. https://doi.org/10.1016/S1053-8100(02)00072-7
- Morgenthaler TI et al. Position Paper for the Treatment of Nightmare Disorder in Adults: An American Academy of Sleep Medicine Position Paper. Journal of Clinical Sleep Medicine, 2018. https://doi.org/10.5664/jcsm.7178
Perguntas frequentes
É normal sonhar muito na gravidez?
Sim. Muitas grávidas dizem lembrar mais sonhos, e os estudos indicam que eles passam a girar mais em torno do bebê, do parto e da maternidade. O sono interrompido pode ajudar a lembrar mais.
Sonhar que algo ruim acontece com o bebê é um aviso?
Não. Sonhos com o bebê em perigo são comuns na gravidez e ainda mais depois do parto, e acompanham a preocupação natural dessa fase. Não preveem nada sobre a saúde do bebê.
Em que fase da gravidez os sonhos ficam mais intensos?
Não há regra. Um estudo com grávidas no terceiro trimestre viu mais sonhos com o parto no fim da gestação do que no início desse trimestre. Cada mulher vive isso de um jeito.
Por que o bebê aparece sem rosto ou estranho nos meus sonhos?
No fim da gravidez, as imagens do bebê nos sonhos tendem a ficar menos definidas. Uma leitura possível é que ele ainda é alguém esperado e desconhecido. Não tem relação com a aparência real dele.
Posso tomar algo para parar de ter pesadelos na gravidez?
Não tome remédio, chá ou suplemento para dormir por conta própria. Converse com o obstetra, que pode avaliar o sono e indicar o caminho seguro para o seu caso.