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Por que a voz não sai no sonho: a resposta curta

Interpretação de sonho não é previsão do futuro nem diagnóstico. Este texto reúne o que a pesquisa sobre sono observa e o que a leitura popular costuma associar ao tema, sempre identificando cada um.

Sonhar que não consegue gritar, falar, correr ou se mexer é muito comum, e uma das explicações propostas está no próprio corpo. Durante o sono REM, a fase em que acontecem os sonhos mais vívidos, quase todos os músculos voluntários ficam relaxados ao extremo, num estado chamado atonia. O cérebro pode mandar a ordem de gritar ou de correr dentro do sonho, mas o corpo não acompanha, e o enredo às vezes registra esse desencontro como uma voz que não sai.

O sonho não é sinal de ataque espiritual nem, sozinho, de doença. Também não é a mesma coisa que paralisia do sono: na paralisia, a pessoa já está acordada, vê o quarto real e não consegue se mexer por alguns instantes. No sonho, a cena inteira é inventada. Uma hipótese comum, porém, é que as duas tenham ligação com o mesmo mecanismo.

Leia também: Paralisia do sono: por que acontece e o que fazer e Sonhar que está sendo perseguido.

O que acontece com o corpo durante o sono REM

O sono REM ganhou esse nome pelos movimentos rápidos dos olhos (do inglês rapid eye movement). Nessa fase, os olhos se movem e a respiração continua, mas os músculos dos braços, das pernas e do tronco quase não respondem. Essa trava evita que a pessoa encene fisicamente o que sonha. Em 1958, William Dement e Edward Wolpert investigaram como os movimentos dos olhos, os movimentos do corpo e estímulos de fora se relacionam com o conteúdo dos sonhos.

Em 2017, John Peever e Patrick Fuller publicaram uma revisão sobre a biologia do sono REM. O texto mostra como os mecanismos do REM interferem na função sensório-motora e explica que falhas nesses mecanismos estão por trás de distúrbios como o transtorno comportamental do sono REM e a narcolepsia.

Ameaças ao corpo também aparecem nos pesadelos. No estudo online de Michael Schredl e Anja Göritz sobre pesadelos recentes, publicado em 2018, ser perseguido e sofrer agressão física estavam entre os temas relatados, justamente o tipo de cena em que não conseguir gritar mais angustia.

Fontes: Dement e Wolpert, Journal of Experimental Psychology, 1958; Peever e Fuller, The biology of REM sleep, Current Biology, 2017; Schredl e Göritz, Nightmare Themes, Journal of Clinical Sleep Medicine, 2018.

As formas mais comuns desse sonho

CenaO que costuma acompanhar
Gritar por socorro e a voz não sairMedo intenso no enredo, sensação de não ser ouvido na vida acordada
Tentar correr e as pernas não obedeceremFuga de uma ameaça, pressa, sensação de estar travado diante de um problema
Falar e ninguém escutarSolidão, conversa importante que está sendo adiada, sensação de ser ignorado
Tentar ligar para alguém e o celular falharNecessidade de ajuda, medo de não conseguir alcançar quem se ama
Conseguir gritar só no fim e acordar gritandoPico de medo que interrompe o sono, às vezes com som real no quarto
Não conseguir se mexer e perceber o quartoPode ser paralisia do sono, um despertar parcial, e não mais um sonho

Quando as pernas pesam numa fuga, o artigo sonhar com corrida explica mais sobre esse travamento. Se o celular era o centro da aflição, veja sonhar com celular. E se quem grita de verdade, sem lembrar de nada depois, é uma criança, o assunto pode ser terror noturno, que acontece em outra fase do sono.

Veja também: Sonhar com vulto e Animais sonham? O que a ciência já sabe.

Quando procurar um médico

Na maioria das vezes, esse sonho é inofensivo. Vale procurar um médico, de preferência com experiência em sono, quando:

  • os episódios de paralisia do sono são frequentes ou vêm com muito medo;
  • você ou quem dorme ao lado percebe que você encena os sonhos: grita, dá socos, chuta ou cai da cama, algo que costuma aparecer depois dos 50 anos e pode ser o transtorno comportamental do sono REM;
  • há sonolência forte durante o dia e perda súbita de força nos músculos ao rir ou se emocionar, sinais que pedem investigação de narcolepsia;
  • há ronco alto, pausas na respiração ou despertares com sensação de sufoco.

Atenção: dificuldade súbita para falar ou fraqueza de um lado do corpo acordado não é assunto de sonho. É emergência, e o SAMU atende pelo 192. Se os pesadelos se repetem e tiram o sono, eles têm tratamento; veja como ter menos pesadelos. Em sofrimento intenso, o CVV atende pelo 188, ligação gratuita, 24 horas.

Fontes: Peever e Fuller, The biology of REM sleep, Current Biology, 2017; Morgenthaler e colegas, Journal of Clinical Sleep Medicine, 2018.

A voz presa segundo Freud, Jung e a fé

Na psicanálise de Freud. Freud dedicou páginas de A interpretação dos sonhos à sensação de movimento inibido: tentar avançar e ficar colado ao chão, erguer a mão e vê-la sem força. Ele chegou a considerar a paralisia motora do sono, mas chamou essa explicação de fácil e insuficiente, já que não sonhamos com isso o tempo todo. Para ele, a sensação aparece quando o conteúdo pede, e representa "um conflito da vontade": querer e não querer ao mesmo tempo. Ele próprio sonhou que subia uma escada malvestido, cruzou com uma criada e ficou grudado nos degraus.

Na psicologia de Jung. Em O homem e seus símbolos, Jung descreve a função compensatória do sonho, que mostra o que a atitude consciente deixa de lado. Para quem engole as palavras no trabalho ou em casa, a voz que não sai pode ser um retrato fiel do dia. É leitura para reflexão, não diagnóstico.

Nos símbolos e na fé. No primeiro livro de Samuel, Ana ora no templo sem som: os lábios se movem, mas a voz não se ouve, e o sacerdote Eli chega a pensar que ela bebeu (1 Samuel 1:13). Mesmo assim, a oração é atendida. Para muitos fiéis, a história lembra que o pedido silencioso também chega a Deus. Na cultura popular brasileira, a sensação de estar preso na cama ganhou o nome de pisadeira.

Para juntar as duas leituras. A fisiologia explica por que o corpo não grita; a psicologia e a fé perguntam o que você não está conseguindo dizer. As duas respostas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.

Fontes: Freud, Die Traumdeutung, 1900; Jung (org.), O homem e seus símbolos.

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O grito preso nos livros dos sonhos

O livro dos sonhos, de L. P. Baçan, não tem verbete para não conseguir gritar. O verbete grito fala de perigo doméstico na vida e de discórdia no amor; o verbete mudo, de risco em compromissos na vida e de dor no amor. É tradição popular.

Freud desconfiava desse tipo de chave fixa. Para ele, o que importa é o que a cena lembra a quem sonhou: a quem você queria gritar, e o quê.

Fontes: Baçan, O livro dos sonhos, 2014; Freud, Die Traumdeutung, 1900.

O que a tradição popular associa a esse sonho

Na leitura popular, não conseguir gritar é sinal de que a pessoa se sente sem voz em casa ou no trabalho; pedir socorro e ninguém ouvir, de solidão; finalmente conseguir gritar, de libertação próxima. Em algumas tradições religiosas, a sensação de travamento é atribuída a espíritos ou a ataque espiritual. São crenças da tradição, para refletir, e não substituem a avaliação médica quando o sono vai mal. Veja o que o significado dos sonhos quer dizer segundo a ciência e a cultura.

Conteúdo informativo. Não substitui orientação médica, financeira ou profissional individualizada.

Fontes

  1. Dement W, Wolpert EA. The relation of eye movements, body motility, and external stimuli to dream content. Journal of Experimental Psychology, 1958. https://doi.org/10.1037/h0040031
  2. Peever J, Fuller PM. The Biology of REM Sleep. Current Biology, 2017; 27: R1237-R1248. https://doi.org/10.1016/j.cub.2017.10.026
  3. Schredl M, Göritz AS. Nightmare Themes: An Online Study of Most Recent Nightmares and Childhood Nightmares. Journal of Clinical Sleep Medicine, 2018. https://doi.org/10.5664/jcsm.7002
  4. Morgenthaler TI et al. Position Paper for the Treatment of Nightmare Disorder in Adults: An American Academy of Sleep Medicine Position Paper. Journal of Clinical Sleep Medicine, 2018. https://doi.org/10.5664/jcsm.7178
  5. Freud S. The Interpretation of Dreams (Die Traumdeutung), 1900. Project Gutenberg. https://www.gutenberg.org/ebooks/66048
  6. Jung CG (org.). O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/HarperCollins Brasil (original: Man and His Symbols, 1964). https://www.skoob.com.br/book/8435
  7. Baçan LP. O livro dos sonhos. Edição do autor, 2014.

Perguntas frequentes

Por que eu tento gritar no sonho e a voz não sai?

Durante o sono REM, os músculos voluntários ficam quase sem tônus. Uma explicação proposta é que o cérebro manda a ordem de gritar dentro do sonho, mas o corpo não responde, e o enredo registra isso como uma voz presa.

É normal gritar de verdade enquanto durmo?

Falar ou murmurar dormindo é comum. Gritar, dar socos ou cair da cama encenando sonhos com frequência, sobretudo depois dos 50 anos, merece avaliação médica. Em crianças, gritos sem lembrança podem ser terror noturno.

Sonhar que não consegue gritar é paralisia do sono?

Não exatamente. No sonho, a cena é inventada; na paralisia, a pessoa já está acordada e vê o quarto real. Uma hipótese é que as duas tenham ligação com o mesmo mecanismo do sono REM.

Quando devo procurar um médico?

Quando a paralisia do sono é frequente, quando você encena os sonhos, quando há sonolência forte de dia com perda súbita de força ao se emocionar ou quando há ronco com pausas na respiração.

Qual o significado espiritual de sonhar que não consegue gritar?

Algumas tradições leem o travamento como ataque espiritual e recomendam oração. Outras lembram a oração silenciosa de Ana, ouvida sem voz. São leituras de fé, sem comprovação, que não substituem cuidar do sono.

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