Sonhar que está incorporando: o que costuma indicar
Interpretação de sonho não é previsão do futuro nem diagnóstico. Este texto reúne o que a pesquisa sobre sono observa e o que a leitura popular costuma associar ao tema, sempre identificando cada um.
Sonhar que está incorporando uma entidade ou um orixá não é prova de mediunidade, não é castigo e não quer dizer que algo ruim tomou conta de você. O sonho costuma aparecer depois de contato com a umbanda ou o candomblé, em fases de curiosidade sobre a própria fé ou em períodos em que você se sente "tomado" por alguma coisa: uma emoção forte, o trabalho, as exigências dos outros.
Vale uma diferença importante. Possessão é o nome que o olhar cristão e popular costuma dar a algo ruim que invade a pessoa contra a vontade dela. Incorporação, para a umbanda e o candomblé, é prática religiosa ritual: acontece numa gira ou numa festa, com preparo, sob a condução da liderança da casa, e é vista como encontro, não como ataque.
Leia também: Sonhar com macumba ou umbanda e Sonhar com Zé Pilintra.
Como a umbanda e o candomblé entendem a incorporação
Na umbanda, o médium é às vezes chamado de "cavalo" ou "aparelho": é por meio dele que as entidades se manifestam na gira para dançar, aconselhar e dar passes. Entre elas estão caboclos, pretos-velhos, exus, pombas-giras e malandros como Zé Pilintra.
Com os orixás, o costume muda. Em muitas casas de umbanda, orixás como Iemanjá e Xangô são cultuados de outro modo, e há quem fale em irradiação em vez de incorporação. No candomblé, o orixá se manifesta nos iniciados durante o rito, dança com suas insígnias e é saudado pela comunidade. Nos mitos reunidos por Reginaldo Prandi, Xangô é o rei ligado ao trovão e à justiça, e Iemanjá, a mãe ligada às águas. Essas descrições são da crença, não da ciência.
Fonte: Prandi, Mitologia dos orixás.
O que a ciência do sono observa
A hipótese da continuidade, testada por Michael Schredl e Friedrich Hofmann em 2003, explica a parte mais simples: quem foi a uma gira, viu um vídeo ou ouviu um parente contar como incorpora leva essas imagens para a noite. Sons de fora também entram: William Dement e Edward Wolpert mostraram em 1958 que estímulos externos, aplicados durante o sono, às vezes aparecem no enredo do sonho. Um tambor numa festa da rua pode virar atabaque.
A sensação do corpo se mexendo sozinho tem a ver com a fase dos sonhos mais vivos, o sono REM. Na revisão de John Peever e Patrick Fuller sobre a biologia do REM, os autores descrevem como os mecanismos dessa fase interferem nas funções sensoriais e motoras. Fora do que a revisão resume, uma explicação comum é que o cérebro vive o movimento por dentro enquanto o corpo fica quieto, o que pode dar a impressão de ser levado.
Na leitura psicológica, incorporar pode falar de perder o controle, ou do contrário: a vontade de ser, por um momento, alguém mais solto ou mais forte.
Fontes: Schredl e Hofmann, Continuity between waking activities and dream activities, Consciousness and Cognition, 2003; Dement e Wolpert, Journal of Experimental Psychology, 1958; Peever e Fuller, The biology of REM sleep, Current Biology, 2017.
Veja também: Sonhar com mãe de santo ou pai de santo e Sonhar com namorado traindo.
Quem você incorporou e o que costuma acompanhar
| Cena | O que costuma acompanhar |
|---|---|
| Incorporar Zé Pilintra | Vontade de leveza e jogo de cintura, ou culpa por ter dado um "jeitinho" em algo |
| Incorporar Iemanjá | Necessidade de cuidar ou de ser cuidado, emoções transbordando |
| Incorporar Xangô | Sede de justiça, uma situação em que você precisa se posicionar |
| Incorporar fora do terreiro, na rua ou no trabalho | Medo de perder o controle em público, emoção que escapou |
| Resistir à incorporação | Conflito entre a fé da família e a sua, vontade de manter as rédeas |
| Ver outra pessoa incorporada falando com você | Busca de conselho, lembrança de gira, confiança em alguém mais velho |
Para cada figura, há leitura própria em sonhar com Iemanjá, sonhar com Xangô, sonhar com caboclo e sonhar com pomba-gira.
Quando o sonho pede atenção
Na maioria das vezes, o sonho passa. Procure um médico se você fala alto, se debate, chuta ou cai da cama enquanto sonha: movimentos fortes durante o sono REM podem ser sinal de um distúrbio do sono, e a mesma revisão de Peever e Fuller cita o transtorno comportamental do sono REM entre os problemas ligados a essa fase. Se o medo de dormir aparece, veja como ter menos pesadelos.
Se, acordado, você sente que algo controla seus pensamentos ou ouve vozes, procure um profissional de saúde mental, sem precisar abrir mão da fé. Em sofrimento intenso, o CVV atende pelo 188, ligação gratuita, 24 horas.
Fontes: Peever e Fuller, The biology of REM sleep, Current Biology, 2017; Morgenthaler e colegas, Journal of Clinical Sleep Medicine, 2018.
Incorporação no sonho: Freud, Jung e as crenças
Na psicanálise de Freud. Freud escreveu que, na experiência dele, "todo sonho versa sobre o próprio sonhador". Quando você aparece no sonho, outra pessoa pode estar escondida por trás de você, por identificação. Incorporar é a versão mais literal disso: você vira a figura. A pergunta freudiana seria que qualidade dela você está tomando emprestada.
Na psicologia de Jung. Jung via os deuses dos mitos como expressões de imagens comuns a toda a humanidade. Na chave junguiana, dar corpo a Xangô ou a Iemanjá no sonho pode ser dar espaço a uma força interior, a justiça ou o cuidado, que a rotina não deixa aparecer. É leitura psicológica, que não substitui a religiosa.
Nos símbolos e na fé. No Dicionário de símbolos, Chevalier e Gheerbrant tratam a dança ritual como linguagem de ligação com o sagrado em muitas culturas. Experiências de ser "tomado" existem em várias religiões: nas igrejas pentecostais, fiéis falam em ser tomados pelo Espírito Santo, como no relato de Pentecostes (Atos 2). Algumas igrejas leem a incorporação afro-brasileira como possessão; os praticantes a veem como encontro.
Para juntar as duas leituras. A ciência explica o corpo que parece se mover sozinho e as imagens guardadas da gira. A fé pergunta com que força você está se encontrando.
Fontes: Freud, Die Traumdeutung, 1900; Jung (org.), O homem e seus símbolos; Chevalier e Gheerbrant, Dicionário de símbolos.
Incorporação nos livros dos sonhos
O livro dos sonhos, de L. P. Baçan, não traz verbete para incorporação, médium ou gira. Os verbetes mais próximos são de elementos da cena: dança, que fala de mudanças na vida e satisfação no amor, e tambor, que fala de prosperidade na vida e intrigas no amor. É tradição, não previsão.
Freud preferia outro caminho: em vez de um código fixo, ele notou que o mesmo fragmento de sonho pode ocultar sentidos diferentes em pessoas e contextos diferentes.
Fontes: Baçan, O livro dos sonhos, 2014; Freud, Die Traumdeutung, 1900.
O que a crença popular diz desse sonho
Entre umbandistas, sonhar que está incorporando costuma ser lido como mediunidade aflorando e convite para conversar com a liderança de uma casa, sem pressa. Incorporar uma entidade específica falaria de afinidade e proteção; resistir, de medo de assumir um caminho. Em algumas igrejas cristãs, o mesmo sonho é visto como alerta espiritual e pedido de oração. São crenças das tradições, não previsões. Veja o que o significado dos sonhos quer dizer segundo a ciência e a cultura.
Fontes
- Prandi R. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535900644/mitologia-dos-orixas
- Schredl M, Hofmann F. Continuity between waking activities and dream activities. Consciousness and Cognition, 2003. https://doi.org/10.1016/S1053-8100(02)00072-7
- Dement W, Wolpert EA. The relation of eye movements, body motility, and external stimuli to dream content. Journal of Experimental Psychology, 1958. https://doi.org/10.1037/h0040031
- Peever J, Fuller PM. The Biology of REM Sleep. Current Biology, 2017; 27: R1237-R1248. https://doi.org/10.1016/j.cub.2017.10.026
- Morgenthaler TI et al. Position Paper for the Treatment of Nightmare Disorder in Adults: An American Academy of Sleep Medicine Position Paper. Journal of Clinical Sleep Medicine, 2018. https://doi.org/10.5664/jcsm.7178
- Freud S. The Interpretation of Dreams (Die Traumdeutung), 1900. Project Gutenberg. https://www.gutenberg.org/ebooks/66048
- Jung CG (org.). O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/HarperCollins Brasil (original: Man and His Symbols, 1964). https://www.skoob.com.br/book/8435
- Chevalier J, Gheerbrant A. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Rio de Janeiro: José Olympio (edição atual: Record, 2020). https://www.record.com.br/products/dicionario-de-simbolos
- Baçan LP. O livro dos sonhos. Edição do autor, 2014.
Perguntas frequentes
Sonhar que estou incorporando quer dizer que sou médium?
Não necessariamente. Para a pesquisa, o sonho reflete imagens e emoções do dia. Na umbanda, a mediunidade é avaliada com tempo, na convivência com uma casa, e não por um sonho isolado.
Qual a diferença entre incorporação e possessão?
Possessão é o termo do olhar cristão e popular para algo ruim que invade a pessoa. Incorporação é prática ritual da umbanda e do candomblé, feita com preparo e vista pelos fiéis como encontro.
O que significa sonhar que incorporou Zé Pilintra?
Costuma acompanhar vontade de leveza, de resolver as coisas na conversa ou de se soltar. Na crença popular, fala de proteção e caminhos abertos. É leitura da tradição, não previsão.
Por que no sonho meu corpo se mexia sozinho?
Durante o sono REM, o cérebro pode viver o movimento enquanto o corpo fica quieto. Se você de fato se mexe muito ou se machuca dormindo, procure um médico.
Qual o significado espiritual de sonhar que está incorporando?
Para muitos umbandistas, é sinal de mediunidade e de proteção; para algumas igrejas, alerta. É uma leitura de fé, sem comprovação, que varia de tradição para tradição.